As Comadres em Lisboa

Por Júlia Carrera

Apresentar AS COMADRES em Portugal é mais do que um desejo, um sonho, é uma necessidade de dividir com nossos pares lusófonos um pouco da benesse que é, que tem sido, trabalhar com Ariane Mnouchkine em língua portuguesa. O projeto se iniciou em fins de 2017 e a cada etapa de trabalho vivemos um novo aprendizado, uma experiência de teatro e vida, como só se conhece no Théâtre du Soleil, a lendária trupo de teatro francesa, sediada na Cartoucherie de Vincennes, há 56 anos. Se em tempos anteriores não se conseguiu concretizar a vinda do Théâtre du Soleil a Portugal, consideramos a oportunidade atual uma chance ímpar de reparar essa falha.

AS COMADRES é um espetáculo que nasce nas periferias do Quebec, pelo joual de Michel Tremblay em 1965 e, anos depois, recebe o reconhecimento internacional que este clássico do teatro do século XX sempre mereceu. Em 2010, por ocasião dos 40 anos da peça, René Richard Cyr nos brinda com uma versão musical igualmente brilhante. Versão esta que encantou Mnouchkine em uma apresentação em 2010 em Paris e, anos depois, a fez mergulhar numa empreitada de Teatro Solidário, ao lado de Juliana Carneiro da Cunha, em solos brasileiros.

Ariane intuiu que as vicissitudes de Germana, a personagem central da comédia musical, e suas comadres seguiam atuais para o público brasileiro e, mais uma vez, criou uma obra visionária se pensarmos que, nos últimos anos, o Brasil se veria orientado por um governo que flerta com a extrema direita que, entre retrocessos diversos, sufoca ainda mais a voz de minorias. E AS COMADRES dá voz não só às mulheres, mas revela as consequências de uma sociedade estratificada que enxerga o consumo como único meio de realização pessoal, de forma que todas as plateias deste início de século, de milênio, se identificam, riem e cantam junto com o coro.

Estamos falando, portanto, de uma comédia musical que apresenta 20 atrizes cantoras, falando em português, sob a batuta da grande encenadora francesa. Temos certeza de que o público português ficará maravilhado com o espetáculo, assim como as plateias de todo o mundo, e jamais esquecerá, como diz Germana, e’sa balada di colação di selo! Vamos abrir o pano?

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