11 anos do Instituto Augusto Boal: Memória em movimento

Neste 2021, comemora-se 90 anos do teatrólogo brasileiro Augusto Boal, conhecido como o criador do “Teatro do Oprimido”, e onze anos da fundação do Instituto que leva o seu nome. Boal foi um revolucionário que sonhou novas formas de se fazer arte e de se viver no mundo. Foi autor de uma extensa obra teatral, parte dela elaborada através da prática laboratorial, coletiva e politizada do Teatro de Arena, de São Paulo, entre os anos de 1950 e início de 1970. Viveu no exílio, perseguido pelas forças autoritárias do regime militar brasileiro, depois de ter sido preso e torturado.

Em sua primeira parada, Buenos Aires, cidade natal de sua companheira Cecília Boal, dirigiu e escreveu peças, crônicas, fez experimentações cênicas, viajou pela América Latina e teorizou sobre sua prática teatral, resultando na escrita de “Teatro do Oprimido: e outras poéticas políticas” (1a. edição de 1974, em espanhol) e “Técnicas Latino americanas de teatro popular: uma revolução copernicana ao contrário” (1975). Em 1976, parte para Lisboa, Portugal, chegando logo após o Processo Revolucionário em Curso, iniciado pela Revolução dos Cravos – que desmontou as estruturas do Salazarismo, construindo novos horizontes políticos. Lá, deu aulas, dirigiu e orientou o famoso grupo “A Barraca”, além de organizar a Feira Portuguesa de Opinião, “Ao Qu’isto chegou”, reunindo dramaturgos, músicos e artistas portugueses. Depois de dois anos, vai para a França, onde inicia um novo capítulo de criações e teorizações, culminando na escrita de “Jogos para atores e não-atores” e “Arco-Íris do Desejo”.

Retorna em 1986 definitivamente ao Brasil, dirigindo diversos espetáculos, dando cursos de formação, aliando-se a movimentos sociais e radicalizando a prática do Teatro do Oprimido. Torna-se vereador e cria o Teatro Legislativo, por meio do qual foram aprovadas 13 Leis Municipais no Rio de Janeiro. Dessa proposta de teatro, também saiu a ideia que resultou, em 1997, após o final de seu mandato, na Primeira Lei Brasileira de Proteção às Testemunhas de Crimes (que inspirou a Lei Federal de Proteção às Testemunhas, nº 9.807/99).

Diante de tamanha obra e tamanha vida, um ano após seu falecimento, em 2010, foi criado o Instituto Augusto Boal, idealizado pela atriz e psicanalista Cecília Boal, sua viúva, para a preservação e divulgação da memória do artista brasileiro. Num primeiro momento, o objetivo principal da entidade era a organização e digitalização dos documentos produzidos e conservados por Boal durante sua vida – envolvendo textos, correspondências, fotografias, recortes de jornais, registros de montagens teatrais e oficinas realizadas em diversos países, além de fitas de áudio e vídeo. A ideia era construir um acervo público a ser colocado à disposição de pesquisadores e demais pessoas interessadas em questões relativas a teatro e sociedade.

Ou seja, o intuito era organizar um arquivo online para que qualquer interessado em teatro e na obra do Boal pudesse acessar uma infinidade de fontes documentais, estimulando a pesquisa e a montagem de seus textos dramáticos. Entretanto, para além de realizar a ambiciona tarefa de estruturação do acervo, o Instituto, desde seu primeiro ano de atividade, começou também a propor uma série de ações práticas, que acabaram por estimular e disseminar o interesse público pela figura de Boal, mas também a encampar projetos relacionados a movimentos sociais, organizações de direitos humanos, arte política e teatro latino-americano.

O site do Instituto mostra um pouco da dimensão que tomou a entidade: a produção de encontros, homenagens, cursos, clubes de leitura, seminários e exposições envolvendo figuras e grupos importantes brasileiros como Fernanda Montenegro, Sérgio de Carvalho, Celso Frateschi, Marco Antonio Rodrigues, Walter Salles, João das Neves, Lauro César Muniz, Nelson Xavier, Milton Gonçalves, Lima Duarte, Zezé Motta, Tom Zé, Zelito Vianna, Benedito Ruy Barbosa, Helio Eichbauer, Cia. do Latão, Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, entre tantos outros, aliado a iniciativas de popularização da obra de Augusto Boal.

É o que se pode acompanhar através da montagem de jovens de Nova Iguaçu, cidade periférica do Rio de Janeiro, de “Revolução na América do Sul”, de 1960 (em cartaz online neste período de pandemia, em 2021), ou através do lançamento da segunda edição de “Crônicas de Nuestra América”, pela Usina Editorial (2021). Mais ainda, desde 2020, o Instituto idealizou o projeto “Feira de Opinião na Pandemia”, mobilizando diversos artistas, teóricos, políticos e pesquisadores, que a cada semana respondem a pergunta feita por Boal em 1968: “Que pensa você do Brasil de hoje?”. A Feira, realizada de forma independente, à contrapelo do governo Bolsonaro, como arte de guerrilha e resistência, encontra-se agora na reta final. Os últimos programas estão sendo dedicados à comemoração dos 90 anos de Augusto Boal e podem ser vistos pelo canal do YouTube*. A memória viva de Boal produz movimento, influenciando novas gerações e apontando para o futuro.

* https://www.youtube.com/channel/UCYEckoSBl5XaGHx1HnEwUSg

AUTORA DO ARTIGO

MARIANA MAYOR

Atriz, professora e pesquisadora de teatro brasileira. Doutora em Artes Cênicas pela Universidade de São Paulo (2020). Foi bolsista da Fundação Calouste Gulbenkian, em Portugal (2018-2019). Atualmente, é professora da Universidade Estadual Paulista e é colaboradora do Instituto Augusto BoaA
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