Outros Olhares: Olhar da Bahia

Outros Olhares

Olhar da Bahia

Vamo’ nessa?… ‘vamo qui vamo!’

Ê, menina moça quando a noite se anuncia teu mundo é a janela teu olhar é da Bahia. “Há tanta mulher no mundo, só não casa quem não quer, por que é que eu vim de longe pra gostar dessa mulher?”,1 são segredos dos lugares que amamos. E são tantos… um deles, a Baía de Todos os Santos e Ritos, mitos de amor e de fé, “já chamei um pai de santo pra rezar essa mulher”. A gente não nasce estreia como num grande espetáculo, aula de cor, sofrimento dos ecos tristes, senzala. Com vocação para um futuro de sonhos míticos, fábulas certeiras de incertezas, nos campos elísios do batuque nagô. Ê, Agô!2 Evoé!

Ninguém sabe o que é”, a tanta coisa pra falar, pra recordar-imaginar-sonhar acordado e dormindo. “Mas acontece que eu sou baiano” e vou set the ball rolling, destemido como uma crônica, selvagem e portuguesa como o bagacinho, banto e sudanês como um gigante continente cultural que nos abraça a todos, “no amor, no sorriso e na flor”,3 um pranto que não quer secar, um sol, uma praia, um mar de segredos onde a tristeza acaba, mas a desafinação, não. Hoje em dia, as coisas estão mais que tensas, o silêncio dos violões, dos tambores das Casas-de-Santo, um nervosismo gripado, um sufoco. Sete cadências pragais, o Egito é, e sempre foi, e será aqui: “como é que vamos fazer?”.4 A velha chama não quer apagar.5

A juventude, menina, caminha como sempre caminhou. “Que lindo!”. Acordes multicores da boa sorte, de Bom Jesus dos Pobres, de Recôncavo. Bahia é celeiro mar de cultura, alegria e dor; de caramurus paraguassus,6 julietas tupinambás e romeus indígenas. Muito? Pouco? Tudo é Bahia, “é também um pouco de uma raça […]7 que não se entrega, não!”. Só vendo, e com os próprios olhos. “É um ‘muitinho’ de Brasil”, é ‘uma hora de relógio’. Tesos estão os músicos. Pandemia acabou com a gente. Com os músicos-médicos, não! Medicina e música continuam, flechas apolíneas de unido futuro. Dioniso mora aqui, Rei Momo, também. O “poetinha”, fez ser sua, casa minha, de mãe-de-santo e pastor, António de adoráveis vieiras, peixes, frutas, acarajés, da cocada baianinha. É gostosa a Bahia. Vamos junto conhecê-la, no carinho do carinho do carinho, do cacique Taparica, da Saritita, do Diogo Scliar, do Diego e do Michel, da Mona Lisa, do Tabaris, da Ladeira da Montanha, do Trio Elétrico, do Dr. Armandinho Merecido Macedo. Do caminhão,8 do ‘Motô’, da ‘muvuca’ do abará, do pé da Ladeira do Carmo, do Jazz Carmo Quinteto, dos velhos e novos baianos. Tudo isso, vamos conhecer na Coluna Olhar da Bahia! ‘Vamo’ nessa?… ‘vamo qui vamo!’.

1 Acontece que eu sou baiano, canção de Dorival Caymmi, poeta-cantor baiano. Compositor-chave de Carmem Miranda junto a Assis Valente, outro gênio da música brasileira.
2 “Licença, em ioruba.
3 Meditação, canção de Tom Jobim que, junto a Joãozinho Gilberto e Vinícius, incorporou o cavalo da bossa-nova.
4 Doralice, canção de Dorival Caymmi.
5 Corcovado, canção de Tom Jobim.
6 Catarina Álvares Paraguassu (1503 – 1583), uma indígena da tribo dos Tupinambás baianos.
7 Isto aqui o que é? (canção de Ary Barroso).
8 Sinônimo de trio elétrico.

AUTOR DO ARTIGO

ALFREDO MOURA

 
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