Sampaio da Nóvoa: O Português como Língua Global

“A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro na vida”
Vinicius de Moraes.
Entrevistar Sampaio da Nóvoa, o rosto visível da congregação de vontades para que a Língua Portuguesa tivesse o seu Dia Mundial, teria que ser uma das nossas apostas para este número UM do LP-Ler o Mundo em Português.
Do desafio da internacionalização, ao papel da ciência e dos cientistas na afirmação da língua como fórum privilegiado da afirmação de futuros, sem esquecer esta língua, a nossa, como lugar de cruzamento entre mundos, esta conversa foi um momento de convivialidade de que tanto necessitamos. Com a consciência que é no diálogo com outras línguas que o conhecimento e a ciência se projetam como um bem comum da humanidade.
E, como vão poder ler, valeu a pena.

LP – Qual o significado e o balanço que faz da existência de um Dia Mundial da Língua Portuguesa?

SN – Sobre os dias mundiais sempre se dirá, e bem, que de pouco servem – não é por haver dias mundiais para a eliminação da discriminação racial ou da violência contra as mulheres ou contra o trabalho infantil ou a corrupção que …

Mas estes dias chamam a atenção e atribuem responsabilidades. Tem sido assim com o Dia Mundial da Língua Portuguesa, intenção há muito alimentada, nomeadamente em duas iniciativas da Assembleia da República, em 1980 e em 2014, e agora finalmente concretizada. Foi muito importante termos tido a possibilidade de juntar todos os países da CPLP neste projecto.

A UNESCO é a organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, mas também para a Comunicação e Informação. Nestas quatro dimensões encontra-se a matriz de uma estratégia de internacionalização da língua portuguesa. Educação – promover o ensino da língua portuguesa no mundo. Ciência – incentivar o português como língua de ciência e de comunicação científica. Cultura – construir um espaço de diálogo, de mobilidade e de criação conjunta em português. Comunicação e Informação – expandir o uso do português no mundo digital, dos negócios, da cooperação internacional…

Não podemos ignorar a força do Brasil, mas o interesse maior da nossa língua comum é a pluralidade das suas presenças e localizações em todos os continentes. A internacionalização da língua portuguesa passa, necessariamente, por um trabalho conjunto no espaço da CPLP.

Ao mesmo tempo, temos de apoiar as iniciativas de defesa da diversidade linguística, pois cada língua transporta uma história, uma cultura, uma maneira de pensar e de sentir. Cada vez que perdemos uma língua – e segundo a UNESCO há cerca de 20 línguas que desaparecem por ano – perdemos uma parte da humanidade. Hoje, não podemos pertencer apenas a uma língua. O mundo exige de nós um esforço de convivialidade, de construção das condições para uma vida em comum.

A predominância de uma língua única é insuportável, mas a existência de uma língua franca, como escreve Vasco Graça Moura, pode ser a maneira de preservar os vários idiomas, porque estabelece pontes úteis entre todos eles: “Aconteceu com o latim. Não se sabe se está a acontecer com o inglês”. É preciso imaginar uma Babel do entendimento. Nesse dia, a humanidade passará a valer mais.

LP – Tem referido sempre que a nossa Língua só ganha dimensão global se conseguir mostrar que, para além de Língua dos Afetos, se afirmar como Língua do Conhecimento. Qual é para si a melhor estratégia para o conseguir?

SN – Quando pensamos na língua temos tendência, naturalmente, para iluminar sobretudo as dimensões literárias e artísticas. É com elas que acedemos a vidas que, de outro modo, nos teriam ficado desconhecidas. O imaginário é, muitas vezes, mais real do que a realidade.

Recordo um aforismo de Teixeira de Pascoaes: “A ciência desenha a onda; a poesia enche-a de água”. A ciência e a arte são formas distintas, mas não opostas, de pensar e de criar. Juntas, em diálogo, têm um poder admirável. Hoje, para fazer ciência, precisamos de uma língua franca, mas é no diálogo com outras línguas que o conhecimento e a ciência se projectam como um bem comum da humanidade.

Teixeira de Pascoaes 1887-1952

A afirmação do português como língua global depende da sua presença no campo científico, nomeadamente do reforço das colaborações internacionais a partir de cientistas dos países de língua portuguesa. Recentemente, foi possível criar um Centro Internacional para a Formação Avançada em Ciências Fundamentais de Cientistas Oriundos de Países de Língua Portuguesa, sob os auspícios da UNESCO, iniciativa que vai justamente neste sentido.

Igualmente importante é a forma como os cientistas portugueses estão cada vez mais inseridos nas redes internacionais, seja a partir de Portugal, seja trabalhando em grandes instituições científicas do mundo. Não pode haver dúvidas quanto ao papel do Inglês como língua franca, mas isso não significa, antes pelo contrário, abdicar do uso do português como língua de conhecimento e de ciência.

Neste sentido, é importante que os modelos de recrutamento, de avaliação e de progressão nas carreiras científicas e universitárias não adoptem métricas que reconhecem apenas o Inglês e desconhecem a nossa língua. Aliás, por iniciativa de Portugal, a UNESCO está neste momento a preparar uma Recomendação sobre a Ciência Aberta, importante instrumento normativo no plano internacional, que tem na diversidade linguística um dos seus pontos centrais.

LP – Esta língua está intimamente ligada com o mar e é nos mares que hoje encontramos os maiores problemas e os maiores desafios: o das migrações, o Mediterrâneo de mar civilizacional passou a cemitério de sonhos; do ambiente, o Atlântico é ladeado por alguns dos grandes pulmões da terra e não está a ser capaz de se assumir como um mar azul; do futuro, o Índico, em cujas margens vive a parte mais significativa da juventude, os Conspiradores do Futuro. Mares que ladeiam o continente do futuro como é a África. Como é que esta língua única pode responder a estes desafios?

SN – A Terra é uma grande massa de água, um imenso mar. É possível que a vida tenha começado no mar. É certo que no mar se joga muito do nosso futuro. As migrações são um exemplo dramático das desigualdades no mundo e das assimetrias Sul-Norte. As questões ambientais estabelecem, também, divisões brutais entre países ricos e pobres. Não é por acaso que o Prémio Nobel da Paz foi este ano atribuído ao Programa Alimentar Mundial: as alterações climáticas podem agravar, e muito, as condições de vida dos mais pobres.

Contrariamente às línguas mais faladas no mundo, com excepção do inglês, que são sobretudo línguas continentais, geograficamente delimitadas (chinês, hindi, russo, mesmo o árabe), o português, como o espanhol, é uma língua de fronteira, que vive no meio de diferentes realidades. É uma distinção muito importante, pois projecta a língua portuguesa como um lugar de cruzamento entre mundos.

É verdade que as línguas europeias estão a “envelhecer”. As excepções são, uma vez mais, o português e o espanhol. No nosso caso, o futuro passa, sobretudo, pelo Brasil e pelos dois lados de África: o Atlântico e o Índico. O português é a língua mais falada no hemisfério sul. Claro que o Sul Global tem uma configuração que não é apenas geográfica. Mas isso não diminui a nossa presença nos lugares decisivos para o futuro da humanidade e do Planeta.

Recentemente, participei numa série de iniciativas do Instituto Mahatma Gandhi para a Educação e a Paz, em Nova Delhi, com o título “Talking across generations”. É um conjunto de encontros e de diálogos, a partir de redes de jovens, que trazem novas maneiras de imaginar o mundo e o nosso futuro colectivo. A lição principal da Covid-19 é a urgência de mudar, de desembrulhar o pensamento, de pensar o que não sabemos. Também em língua portuguesa.

LP – A língua portuguesa que é claramente uma língua de encontro …

SN – Este ano, no dia 5 de Maio, referi um texto notável de Rui Knopfli, escritor português e moçambicano, que em 1989 falou do “denominador comum da Língua Portuguesa, esse Amor, por vezes, precipitadamente refutado, mas sempre recolhido para o melhor e mais belo do que teremos escrito, agora temperado pelo desvairo criador de novas culturas evoluindo e alargando, por caminhos próprios e intransmissíveis, uma Pátria coincidente”.

Para explicar a evolução da língua portuguesa Rui Knopfli afirma que o caudal do rio é o resultado dos seus afluentes, e tanto melhor quanto mais tumultuosos. É uma bela abertura para um dos mais importantes debates do nosso tempo: o “comum” ou os “comuns”. Não é apenas uma questão jurídica, de posse e propriedade, mas sobretudo um processo de participação comum, de construção de uma vida em comum, de co-construção de um destino comum.

Os debates filosóficos e políticos sobre o “comum”, enriquecidos por perspectivas como aquelas que se apresentam no Segundo manifesto convivialista, acabado de publicar, parecem-me decisivos para construir um novo humanismo, definido pela paz com os outros e pela paz com a Terra. Espero muito do contributo que possamos dar a partir das múltiplas presenças e posições da língua portuguesa.

Na sua última encíclica, Fratelli Tutti, que acaba de ser publicada, o Papa Francisco menciona a necessidade de uma cultura do encontro que supere as dialécticas que colocam um contra o outro. E para ilustrar esta ideia, recorre a um dos mais notáveis poetas da língua portuguesa, Vinicius de Moraes: “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro na vida”. Feliz acaso, se de acaso se tratar. De uma coisa já todos estamos conscientes – podemos ganhar muitas batalhas, uns contra os outros, mas seremos todos a perder a guerra.

LP – A teia global que se foi tecendo no interior desta língua foi em grande parte suportado por pessoas e projetos no domínio da Cultura e do Conhecimento. Como é que hoje podemos revelar e reconstruir uma rede desta dimensão centrada naturalmente na Cultura e no Conhecimento?

SN – Num discurso recente, lúcido e corajoso, António Guterres chamou a atenção para duas fontes históricas da desigualdade no mundo: o colonialismo e o patriarcado. Para sermos capazes de construir redes de cultura e de conhecimento, temos de reconhecer a persistência destas tendências nos dias de hoje, bem presentes em trágicos acontecimentos deste ano de 2020, como o assassinato de George Floyd, ou os actos sistemáticos de violência contra as mulheres.

António Sampaio da Nóvoa (Embaixador de Portugal na Unesco)

Um dos momentos mais marcantes da minha vida foi a entrega das insígnias de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Lisboa a Paulo Freire, em 1996. No seu discurso de agradecimento, Paulo Freire, num improviso notável, explicou a sua alegria e a sua ligação a Portugal ao mesmo tempo que fez uma crítica dura ao colonialismo: “Eu tenho horror ao colonialismo, não importa como se vista”.

Nas palavras de António Guterres e de Paulo Freire estão gestos essenciais para pensar as redes de cultura e de conhecimento nos dias de hoje, integrando diferentes pontos de vista sobre a história e uma capacidade de crítica sobre a forma como se perpetuam lógicas de dominação e de poder. Sem isso, facilmente nos inclinaríamos para discursos “solenes” sobre a língua, a cultura e o conhecimento, incapazes de compreenderem a necessidade de pensar as desigualdades e as injustiças no mundo, passadas e presentes.

Leio e releio o Grande sertão: Veredas de João Guimarães Rosa: “Mire veja: o mais importante, e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou”.

As redes de cultura e de conhecimento não podem ser momentos fugazes ou iniciativas efémeras. É preciso dar continuidade. No meu caso, por exemplo, gostaria de imaginar a possibilidade uma universidade luso-brasileira que resultasse da associação de duas grandes universidades de Portugal e do Brasil. Muitos outros projectos são possíveis. Na arte. Na criação. Na cooperação internacional. No Atlântico. No Índico. Entre Sul e Norte. A língua portuguesa é um bom cimento para construir pontes.

LP – Que pessoas e obras de referência poderiam constituir a grande biblioteca de referência que nos ajudasse a construir um pensamento e uma prática para o universo da Língua Portuguesa?

SN – A resposta é fácil, tendo em conta que acaba de ser publicado o último volume de um projecto extraordinário, dirigido pela Helena Buescu, intitulado Literatura-Mundo Comparada: Perspectivas em Português. Os dois primeiros livros, Mundos em Português, publicam textos de cerca de 300 autores escritos nas várias literaturas de língua portuguesa. Esta antologia não pretende definir um cânone, mas antes construir um “lugar de encontro”.

É um excelente ponto de partida para uma Biblioteca sempre incompleta. Permito-me, por isso, acrescentar um autor que me tem acompanhado nos últimos anos, e que faleceu recentemente, E.M. de Melo e Castro: “para seres grande / sê pequeno / só assim / poderás / CRESCER”. E um outro, brasileiro, Wlademir Dias-Pino, também ele poeta visual: “A liberdade é sempre experimental”. Ao sugerir estes dois “acrescentos” quero marcar a incompletude de qualquer biblioteca de uma língua viva.

A leitura é fundamental. Nada a substitui. Tudo o que sou, ganhei nos livros que li e perdi naqueles que não li. George Steiner diz que memorizar alguns livros é a única maneira de escapar à censura e à perseguição. Tenho a ilusão de pensar que os livros que memorizei me asseguram a liberdade. Está nos Lusíadas: “os Livros que tu pedes não trazia, / Que bem posso escusar trazer escrito / Em papel o que na alma andar devia”. A minha pátria são os livros.

Por isso, gosto tanto de um texto que me foi enviado há alguns anos, escrito por uma aluna do 9.º ano: “A minha mãe tem dois [livros] que eu lhe ofereci, ela ainda não acabou de ler um, mas já tem o outro. O meu pai não gosta tanto de ler, mas estou a pôr-lhe um fininho, depois aumento um bocadinho para ele se habituar a ler”. A língua é um encontro entre mundos e entre gerações.

LP – Estamos a viver uma crise que parece não ter fim. Quando sentíamos que nada podia parar o desenvolvimento, eis que uma pandemia vem mostrar a nossa fragilidade, a fragilidade do nosso modo de vida. Como enfrentar estes tempos?

SN – Estamos a viver tempos dramáticos. Estamos desorientados, perdidos. Não sabemos como agir, nem o que pensar, mas sabemos que precisamos de mudar de via, como escreveu Edgar Morin, e de vida. O presente já não é o que era, e o futuro muito menos.

Precisamos urgentemente de libertar o futuro, adoptando três caminhos: uma valorização do comum, uma outra relação com o planeta e a participação de todos, incluindo os jovens, na definição do seu futuro. Recentemente, falando na Reunião Mundial da Educação (22 de Outubro de 2020), Angelina Jolie afirmava: “Com a conectividade que temos não há nenhuma razão para que não haja uma conversa nos dois sentidos, entre líderes, educadores e os jovens que são quem conhece os melhores desafios que enfrentam. Da mesma forma que a educação, também a participação é um direito”.

O pior que nos poderia acontecer seria considerar esta pandemia como um parêntesis, como se fosse possível, e desejável, regressar ao “normal” que aqui nos trouxe. Precisamos de libertar o futuro de ideias feitas, de preconceitos, de visões únicas e totalitárias do mundo, de comportamentos que estão a destruir a vida e a humanidade. Para isso, é urgente substituir as certezas pelas dúvidas, dar lugar a conversas plurais. E ninguém pode pensar fora das possibilidades da língua em que pensa, como escreve Vergílio Ferreira. Cultivar e alargar estas possibilidades é abrir a língua aos futuros possíveis e escolher os desejáveis. Porque é na língua que está a liberdade.

Segundo Bernard-Henri Lévy, o século passado ensinou-nos que, quando apostamos na nostalgia, apenas pavimentamos o caminho para o totalitarismo, mas “quando, em vez disso, nos comprometemos a seguir em frente, mergulhar no desconhecido e abraçar a nossa humanidade com todas as suas incertezas, então embarcamos numa aventura verdadeiramente bela e nobre – o próprio caminho para a liberdade”. O nosso futuro comum precisa das línguas, e da língua portuguesa.u