Edgar Cardoso: Renaissance Man

LP – Edgar numa entrevista de 2015, numa altura em que estava a dar um espectáculo com a Orquestra de Câmara do Luxemburgo no Centro Cultural de Mamer “Kinneksbond”, afirmou que o piano era o seu melhor amigo. Hoje, passados cinco anos, ainda continua a ser?

EC – Claro que sim! É graças ao piano que hoje conheço uma grande parte do mundo, devo tudo ao piano! Tenho o privilégio, pessoal e profissional, da comunicação através de uma língua universal, que é a música, que me permite chegar a todos os cantos do globo e ‘lá’ também ser compreendido. Não transporto comigo um piano físico, por restrições logísticas, mas tenho a sorte de ter sempre tido o piano, no sentido metafísico, à minha espera onde me levam os desafios profissionais.

LP – O seu percurso é multifacetado e aventureiro. Quando tudo se indicava que apostasse na carreira de pianista, no final do seu mestrado, que como em todo ou quase todo o curso teve avaliação máxima, arrisca um contrato num cruzeiro e foi visitar mundo. Porquê?

EC – Durante os meus estudos formais de música, tive a oportunidade de participar em inúmeros eventos pianísticos em todo o mundo, contactando com mentes indescritivelmente talentosas e disciplinadas. Porém, à medida que fui aprofundando a análise das obras artísticas que procurava interpretar, um dilema que mudaria a minha vida começou a pairar sobre os meus pensamentos: dada a preparação ‘olímpica’ que a carreira pianística requer, eu teria de sacrificar uma grande parte da minha vida pessoal (que já vinha sendo descartada) para poder subsistir enquanto pianista e equiparar-me (ou superar) àqueles talentos (porventura mais inatos que o meu) que ia conhecendo no meu percurso. Na minha argumentação comigo mesmo, não me via como intérprete a tempo inteiro sem as vivências necessárias para adquirir essa fonte de interpretação, qual fenómeno Fernando Pessoa e heterónimos. Na primeira oportunidade, coloquei o Trabalhar-para-Viver acima do Viver-para-Trabalhar e agarrei a mais importante oportunidade da minha vida, no meu primeiro contrato de cruzeiro à volta do mundo (35 países em todos os continentes).

LP – Depois encontramo-lo em Los Angeles a preparar-se para entrar numa escola de teatro musical, onde foi aceite, mas onde finalmente não entra pois é aceite como intérprete para um musical. Foi assim?

EC – Depois da minha primeira viagem marítima à volta do mundo, resolvi aventurar no país que considero mais estimulante a nível de Teatro Musical, a área performativa que sempre me foi mais cara, pela oportunidade de integração e fusão de diferentes meios de comunicação artística. O plano inicial é sempre obter formação para depois ‘atirar aos lobos’ e competir no meio profissional. Ter sido aceite na American Musical and Dramatic Academy foi para mim um reconhecimento do meu potencial enquanto intérprete em palco (já que tinha também experiência a tocar piano para musicais, em fosso de orquestra). Contudo, infelizmente os montantes necessários para formação nos EUA são incomportáveis em comparação com as referências portuguesas, ainda que com bolsas a chegar aos 70%. Na altura, o dilema foi resolvido com a seleção para um elenco profissional de um musical em Los Angeles, que me permitia obter formação similar, mas com remuneração, pelo que a escolha foi simples de fazer. Depois da primeira aventura enquanto bailarino e cantor em ‘Bye Bye Birdie’ seguiram-se 12 outros musicais por todo o país.

LP – De Los Angeles volta a partir para o mundo e hoje, surpreendentemente, encontramo-lo em Loulé. A fazer o quê?

EC – Após mais duas experiências no mar enquanto pianista, cantor, ator e bailarino, fui ter à China, enquanto professor e intérprete de Teatro Musical. Em Shanghai, consegui uma posição profissional que culminava as minhas aventuras nas várias artes performativas, atingindo a independência enquanto diretor musical, intérprete, compositor, guionista, coreógrafo, encenador e sobretudo educador para desenvolver os meus próprios espetáculos e programas de educação para as artes performativas. A pandemia arrancou o tapete de ouro que se encontrava debaixo dos meus pés, e em março de 2020 encontro-me em Portugal, para esperar, e esperar, e esperar. A espera era já muita e, no início do ano letivo, tomei a decisão de não esperar mais, e agarrar uma hipótese de me reconciliar com o meu país, abraçar um projeto educativo novo num local improvável (mas bem solarengo e feliz) e assim aproveitar este peculiar interregno, acreditando em novos voos e viagens para breve.

LP – Como é que consegue conciliar todas estas valências, ou, melhor, como é que as foi desenvolvendo? Sabemos que, ao mesmo tempo que estudava piano, frequentou o Curso de Teatro Musical da Academia de Música de Vilar do Paraíso.

ECEstudei durante 14 anos na Academia de Música de Vilar do Paraíso. Corresponde a metade da minha idade atual. Uma vida dentro de uma instituição fascinante, em que se respirava uma energia criativa enorme, uma vontade de estar em palco e comunicar com públicos, e uma motivação coletiva para se reunir o máximo de valências em prol de um produto artístico final. Na altura, esse curso de Teatro Musical era único em Portugal, portanto cresci como observador atento das produções que iam surgindo na Academia (assim chamávamos à AMVP). Aos 16 anos, finalmente venci os meus próprios preconceitos e os de muita gente em meu redor e avancei para o Curso de Teatro Musical de 3 anos, com formações frequentes em Londres. Às 5-6 horas diárias de estudo de piano somavam-se agora os aquecimentos vocais, alongamentos físicos e a memorização de textos, para além da frequência escolar regular de Artes Visuais. Acredito, ainda hoje, que a ambição e a paixão intrínsecas movam montanhas e façam com que maximizemos a nossa eficiência diária, de forma a preencher com sucesso todas as nossas necessidades.

LP – Sendo uma pessoa que tem mundo e que é do mundo entende que a leitura que faz de tudo o que viveu e experienciou tem a marca tão especial de ler o mundo em português?

ECTenho amigos e contactos profissionais na América que me chamam ‘Renaissance Man’, devido à proliferação de paixões e valências. O que os norte-americanos não se apercebem é que foi durante o Renascimento que as mais importantes navegações e descobrimentos portugueses aconteceram. Eu considero que pertenço a um grupo minoritário de portugueses hereditários dessa filosofia de curiosidade, que vê o mundo não só dentro das suas fronteiras, mas para lá das linhas continentais e do que o horizonte permite ver. É possível verificar as marcas dessas aventuras marítimas portuguesas nos mais diversos cantos do mundo, mas também já visitei locais como San Diego (EUA), Macau (China) e Havai (EUA), entre outros, em que a presença portuguesa foi determinante para o seu desenvolvimento, mas a educação para essa história significante está a desvanecer-se. Cabe a nós, emigrantes do mundo, partilhar a nossa identidade, comunicar a nossa história, e também revisitar e repensar o nosso país, com olhos de fora.

LP – O que diria aos jovens que hoje se sentem perdidos e sem futuro?

EC – A ‘espera’ não deve ser tempo morto. É uma oportunidade para reflexão, para nos repensarmos e para nos transformarmos. O mundo torna-se cada vez mais especializado e competitivo, mas o ano que temos vivido prova que a aposta cega numa só forma de se ser útil à sociedade é demasiado arriscada para os tempos modernos. Convém não esquecer o Viver, enquanto o Trabalhar está ferido, pois durante muitos anos iremos pensar em como seria ‘bom’ voltar àquele ano em que o Tempo parou e tínhamos tempo para tudo. Viver, os pequenos prazeres, as pequenas viagens (físicas ou psicológicas), as pequenas transformações necessárias. Em suma de toda a entrevista, sou um apologista da versatilidade, das vivências variadas e ‘arriscadas’ e de uma aprendizagem holística do mundo, que nos levará certamente, a seu tempo, onde somos mais precisos, como que caravelas portuguesas ao sabor do vento.

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