Nathalie Melo, Uma Cientista Artista ou a Arte de fazer Ciência

Este texto é um depoimento na primeira pessoa que responde aos desafios que o Ler o Mundo em Português colocou à Nathalie, saindo só desse registo na parte final do texto pois achámos que era importante fazer-lhe o desafio de pensar o trabalho que realiza em no contexto do universo da língua portuguesa, especificamente na defesa do ambiente no quadro do oceano Atlântico.

O meu trajeto de carreira profissional, começou em 2008, quando parti para Portugal para fazer a minha licenciatura em Biologia na Universidade de Évora. Durante a licenciatura mantive a minha formação sempre direcionada às espécies animais e para a defesa e conservação do meio ambiente, o que resultou numa continuação para o Mestrado de Biologia da Conservação na mesma Universidade. Durante 6 anos de formação tentei participar o mais que pude em ações de voluntariado, palestras e conferencias da área, alargando o meu horizonte para várias temáticas da conservação. Já no mestrado percebi que era possível fazer o projeto de tese em Cabo Verde, após alguns contactos com a ONG local, Biosfera I, que já trabalhava na proteção de tartarugas e aves marinhas. Portanto para a tese, trabalhei com as comunidades de aves marinhas da Reserva Natural de Santa Luzia e ilhéus, mais precisamente no ilhéu Raso. Trabalhei com 2 espécies especificas, uma delas muito caçada por pescadores nacionais no passado, tentando estimar os seus números populacionais durante a época reprodutora de forma a perceber se teria havido ou não um aumento nos seus números, após a ação da ONG no terreno.

O Fascínio de Ligar a Biologia e a Arte

Após o Mestrado, regressei a Cabo Verde e continuei a trabalhar com a Biosfera I, através de ações de voluntariado e prestação de serviços, fiz alguns estágios em outras áreas (ex: veterinária), até ser contratada para o departamento de imagem e comunicação da Biosfera, sendo que desde há muito, demonstrava aptidão para o lado artístico, tento participado em alguns programas de arte, concursos, etc. Mesmo antes de seguir o caminho da biologia, sempre estive muito dividida entre o mundo das artes e da biologia, mas quando comecei a trabalhar nessas duas vertentes, percebi que era possível juntar esses dois mundos. Na altura tive a maravilhosa oportunidade de dar asas à minha imaginação e criar uma animação para a Biosfera, uma curta com desenhos animados, que servisse para educar as crianças nas escolas sobre as aves marinhas de Cabo Verde. O resultado foi bastante positivo e passou na grande maioria das escolas das ilhas de Barlavento e pela comunicação social.

Foi nessa altura que também surgiu a oportunidade de me candidatar a uma bolsa de Doutoramento, oferecida pela Birdlife International. Achando que seria uma oportunidade imperdível, candidatei e entrei no programa da Universidade de Coimbra, trabalhando no departamento de Ciências da Vida, com a equipa do MARE-ECOTOP para o estudo da Ecologia de Predadores Marinhos de Topo. O objetivo principal da minha tese é a identificação e proposta de Áreas Marinhas Protegidas que possam ser implementadas no futuro, nas águas de Cabo Verde. Através do seguimento de 6 espécies de aves marinhas de Cabo Verde, pretendemos identificar zonas importantes de alimentação durante a sua fase reprodutora, ao mesmo tempo que identificamos zonas de grande pressão da pesca que possam afetar negativamente as aves e outras espécies marinhas.

Um Prémio Internacional com um Conto sobre o Ambiente

A minha vitória mais recente terá sido a participação de um Concurso Regional Africano da Universidade do Ghana, que pedia a criação de um trabalho artístico digital que educasse, sensibilizasse e influenciasse mudanças de atitude nas pessoas, face às problemáticas e desafios que o ambiente tem atravessado nos últimos anos, como a poluição por plástico, mudanças climáticas, destruição de habitats, aumento da população humana, etc. Acabei fazendo um pequeno conto, com grande foco em ilustrações chamativas e representativas dos problemas, e que passasse uma mensagem simples, mais direcionada aos mais pequenos, mas que também fosse impactante para outras idades. Embora tivesse ficado em segundo lugar, achei que fosse uma vitória, pelo facto de ter causado tanto impacto nas pessoas que leram a história. As partilhas nas redes sociais foram imensas, chegando a outros países, não só africanos, mas também europeus e americanos, o que para mim foi um ganho, principalmente sabendo que muitas pessoas também tiveram o cuidado de ler para os seus filhos e netos, o que no final era o grande objetivo. Começarmos a educar as nossas crianças para que cresçam mais conscientes e para que possam elas próprias, prosseguir com o trabalho de conservação no futuro, cuidando do nosso planeta, dos nossos mares e das nossas espécies.

Os Desafios

Chegamos numa altura em que não podemos somente estudar as espécies, o mais importante agora será a implementação dos planos de conservação das espécies e educar as nossas populações sobre esses problemas, despoletando mudanças de atitudes nas próprias pessoas. Muitas ameaças sofridas pelas espécies selvagens, começam e terminam com a atitude das pessoas: O plástico continuará a poluir os oceanos se as pessoas não disserem basta e perceberem que não custa nada colocar o lixo no contentor ou ecoponto, se houver, e não atirá-lo ao chão ou no mar; a pesca, caça e comércio ilegal de espécies continuará a ocorrer se houver procura para aquisição dessas espécies, quer seja para consumo, uso de materiais derivados, ou como animais de estimação; as mudanças climáticas, continuarão a mudar o planeta se não decidirmos a mudar as nossas atitudes, adotarmos comportamentos mais amigáveis para com o ambiente, etc. Pequenas atitudes fazem a diferença, principalmente num país como Cabo Verde, que tanto depende dos mares para o sustento das pessoas e para o turismo.

A melhor aposta será sempre a sensibilização e educação das pessoas, e se conseguirmos sensibilizar a maior parte das crianças, que são o futuro da humanidade, talvez o nosso ambiente terá uma chance muito maior.

Chegados aqui, aos desafios sobre o futuro, não resistimos em colocar-lhe esta questão:

LMP – Como é que uma bióloga artista, que vive e trabalha no meio do Atlântico e pertence a um universo duma língua que tem dentro dela alguns dos pulmões através dos quais o mundo respira – a Amazónia e o Parque Natural de Òbo, em São Tomé e Príncipe, as florestas tropicais da África lusófona -, olha para uma estratégia da defesa deste oceano único que é o Atlântico, numa perspetiva articulada entre os vários países e comunidades de língua portuguesa.

Não esqueçamos que uma outra bióloga, a Adjany Costa, tem uma atuação muito ativa em Angola, sendo hoje, com 30 anos, Ministra da Cultura, Ambiente e Turismo, e que existem uma série de especialistas do ambiente tanto em São Tomé, como no Brasil.

Nathalie Melo – Acho importante que haja uma colaboração entre estes diferentes países, que não só têm em comum o Atlântico, mas também partilham de uma vertente histórica bastante semelhante, e que beneficiam de uma língua comum, facilitando o intercâmbio de ideias, experiencias, desafios e resultados, de forma unificadora e eficaz na identificação e implementação de estratégias para o Atlântico, de forma global, e de forma mais especifica e concreta, para cada país.

De uma forma geral, a importância dos oceanos já é extremamente elevada, por produzirem grande parte do oxigénio do mundo, seguido das grandes florestas tropicais, onde a maioria se encontra também nesses mesmos países, e por isso uma unificação dessas nações apenas traria benefícios.

A formação e capacitação de jovens nacionais de cada um destes países, será sempre uma excelente estratégia, de forma a dar continuidade aos trabalhos de conservação, apostando nos novos talentos e novas lideranças de pessoas que nascem nestas realidades e que melhor entendem das necessidades do seu país. Particularmente Cabo Verde, bastante dependente do Atlântico, beneficiaria de Acordos de pesca que fossem mais justos e que garantissem todas as medidas de uma pesca sustentável e mitigadoras de problemáticas como o bycatch, sendo esta zona considerada um importante hotspot de biodiversidade. Como a segunda região mais importante para a nidificação de tartarugas marinhas a Norte do Atlântico, e local de reprodução de outros predadores marinhos como tubarões, baleias e aves marinhas que utilizam toda a costa oeste africana como zona de alimentação, demonstra a sua importância em termos de produtividade marinha. Tratando-se também de uma zona muito afetada pela pesca ilegal, realmente só teríamos a ganhar com uma unificação dos países de língua oficial portuguesa de forma a criarmos estratégias com objetivos comuns. O mesmo diria, na área de sensibilização, sendo que a língua não seria um impedimento, e mais facilmente difundiria a mensagem entre todos.