Os Desafios Com Que a Terra se Confronta

No nosso tempo as questões verdadeiramente relevantes não são mais de natureza regional ou, sequer, nacional, mas sim planetárias ou globais. Nas décadas mais recentes a humanidade vê-se perante desafios cada vez mais complexos e abrangentes, cuja resposta não pode ocorrer localmente. mas, tão somente, a nível global. Estudos como os de Paul Kennedy (“Preparando para o Século XXI”), Jared Diamond e outros são claros a este respeito.

Identifiquemos aqueles que comummente são mais referidos:

As alterações climáticas atingem dimensões e efeitos dramáticos. Com apenas um grau acima da temperatura média no período pré industrial, são evidentes alterações preocupantes a nível da pluviosidade, regimes de ventos, secas prolongadas, temperaturas extremas, escassez de água em inúmeros solos nas mais diversas regiões, tempestades e furacões mais frequentes e violentos, redução nas massas glaciares, degelos na Antártica e na Gronelândia, etc.. As expectativas dos efeitos que poderão resultar de subidas da temperatura média da Terra acima de dois graus são tão dramáticas quanto prováveis.

As alterações demográficas são, globalmente, de enorme relevo, com uma população crescente que põe em causa os recursos alimentares do planeta, com acentuado envelhecimento populacional na Europa e partes importantes da Ásia, a consequente redução proporcionalmente crescente das populações em idade produtiva, uma pressão brutal sobre os terrenos produtivos e os aquíferos.

As migrações são crescentemente explosivas, quer devido a conflitos políticos e militares quer, e principalmente, devido à escassez de recursos alimentares, com graves problemas de disponibilidade de terras de cultivo e de água para consumo humano, para o gado e para a agricultura. A escassez crescente de meios para a produção de alimentos e de água está a destruir a organização social, já de si precária, de parte da África (nomeadamente sul sahariana) e da Ásia do Sul, em particular na Índia, na China, no Bangladesh e no Afeganistão. As tensões sociais daqui resultantes levam a conflitos armados e à fuga em massa de populações que tendem a inundar as periferias dessas regiões, em particular a Europa do Sul e do Sudeste.

A explosão técnico-científica em curso tende a aumentar todas as assimetrias, com os países ricos e com boas estruturas de governação e de organização social (vide Daron Acemoglu e Lames A. Robinson em “Porque Falham as Nações”) a aumentarem substancialmente as suas vantagens competitivas em relação às demais, principalmente em relação à generalidade das nações africanas, ao mundo muçulmano, a parte da América Latina e parte da Ásia do Sul. Do mesmo modo, dentro de cada país temos os vencedores e os excluídos, com a assimetria na distribuição de riqueza a acentuar-se e o desespero dos marginalizados a traduzirem- se nos campos políticos e culturais no reforço dos populismos e na reascenção da extrema direita.

A redução da biodiversidade, com a extinção em massa de espécies, a destruição da diversidade de sementes e de variedades de alimentos básicos e o colapso de sistemas ecológicos, como sucede com a Amazónia, as florestas do sudeste asiático, a massificação das monoculturas e a decorrente extinção de nichos ecológicos para espécies animais, para além das perdas terríveis para a vida do planeta acarretam riscos crescentes de destruição em massa de culturas animais e vegetais para o consumo humano, com a explosão de doenças imparáveis devido à falta de diversidade genética dessas mesmas espécies animais e vegetais.

Como a pandemia em curso o demonstra, a destruição dos habitats animais e de vastas manchas florestais altera o ambiente das diversas espécies de tal modo que, à mistura com a crescente mobilidade humana e as gigantescas massas de refigiados, o risco de aparecimento de novos vectores de doenças até aqui desconhecidas de natureza viral ou bacteriana aumenta explosivamente, com consequências potencialmente devastadoras para as sociedades e economias modernas. A racionalidade da economia de mercado não é compatível com sistemas e estruturas organizacionais de natureza preventiva para enfrentar estes riscos, com os efeitos dramáticos que podemos constatar, principalmente nos países de racionalidade económica predominantemente liberal, como os EUA.

Se olharmos com atenção para a evolução destes gigantescos e crescentes desafios, facilmente constatamos que: estão estreitamente interligados, alimentando-se e reforçando-se uns aos outros; e o primeiro destes desafios, as alterações climáticas, sobredeterminam todos os demais.

O agudizar das alterações climáticas, se não revertido a tempo (mesmo que eliminadas todas as emissões de gases com efeito de estufa a temperatura da Terra continuaria a aumentar ainda por algumas décadas) poderá levar, como está consensualizado pela grande maioria dos cientistas, a consequências de entre as quais destacamos:

A subida do nível geral dos mares até um metro a curto prazo, com a inviabilização da habitabilidade de grande parte ou, pelo menos, parte relevante, de numerosas ilhas do Pacífico, parte do Bangladesh, inúmeras zonas costeiras da Europa, sul dos EEUU (Flórida), deltas dos grandes rios da Índia, Egipto, Brasil, etc..

Derretimento de parte da cobertura glaciar das grandes montanhas (Himalaias, Andes, Alpes), com a consequente redução dos caudais dos rios que deles se alimentam e a redução da deposição de aluviões nos vales e deltas, alternadamente com inundações catastróficas e imprevisíveis.

Alteração do regime de ventos que alimentam a Floresta Amazónica, com a sua destruição a prazo e a desertificação de boa parte da América Latina, e do regime das monções, com efeitos terríveis na agricultura da Ásia do Sul.

Desertificação de parte da Europa Mediterrânica e, potencialmente, da América Latina, na medida em que a Floresta Amazónica entre em colapso (o que poderá ocorrer se 25% a 30% da mesma for destruída, segundo dados recentemente publicitados).

Derretimento do permafrost siberiano e canadiano, com libertação de quantidades gigantescas de gases com efeito de estufa, para além de libertação de cadáveres congelados e potencias epidemias imprevisíveis e incontroláveis.

Explosões epidémicas imprevisíveis e descontroladas, com efeitos que podem levar à dessestruturação desde comunidades locais até à própria comunidade mundial.

Estas consequências terão efeitos catastróficos a nível da fome generalizada a grande parte do planeta, a migrações em massa incontornáveis e guerras sanguinárias e ingeríveis.

Todo este quadro, que constitui uma ameaça potencial e incontornável, não é passível de superação a curto prazo por razões associadas aos interesses instalados. Os grandes países emergentes (China, Índia, Brasil, Rússia, Indonésia, Nigéria) não podem aceitar deixar de se industrializar enquanto que o planeta é destruído pela poluição dos países desenvolvidos, EUA à cabeça. A classe política internacional, por sua vez, responde acima de tudo às expectativas dos seus eleitorados.

A instâncias internacionais não são capazes de fazer mais do que alertar para o que nos espera.

Luís Jorge Monteverde