Uma Língua da Liberdade: Aberta à diversidade contra o pensamento único

Com a Língua Portuguesa estava lançado o veículo que conduz o pensamento português, i.e., a palavra, os conceitos e os signos, que, reflectindo uma experiência cultural específica e «situada», vão derramar-se na universalidade como exprime o génio camoniano, «Cantando espalharei por toda a parte….».

Os Lusíadas, constituem a primeira visão da Europa vista de fora e, singularmente, a partir do Oriente. Camões no Canto III ao referir-se à Europa, à Espanha e a Portugal, faz sobressair a nossa identidade específica. Portugal é a Porta do Mar, seu factor geográfico determinante, a sua rede hidrográfica, a morfologia do solo voltada para o mar, bem como os factores culturais enraizados na cultura cristã favoreceram o seu modo de vida e a sua afirmação como nação independente, conferindo-lhe força à escala planetária.

Para entender essas filosofias e religiões viu-se obrigada a conhecer essa nova realidade, e isso contaminou-a indelevelmente, aprofundando e radicalizando o pensamento de uma forma mais liberta. Muito por força da filosofia hindu.

A Língua Portuguesa, transportada pelos mares adiante desde há seiscentos anos, expandiu-se por vastos territórios em todos os continentes, tornando-se a primeira língua franca e da globalização, registando e incorporando uma enorme diversidade de saberes, conhecimento e cultura, sobremaneira quando sofre um enorme choque cultural que foi o encontro com as milenares civilizações do Oriente, da Índia e da China. Para entender essas filosofias e religiões viu-se obrigada a conhecer essa nova realidade, e isso contaminou-a indelevelmente, aprofundando e radicalizando o pensamento de uma forma mais liberta. Muito por força da filosofia hindu.

Com efeito, o encontro com civilizações tão fortes como as do Oriente, da Índia e da China, condiciona a própria intenção de expansão do cristianismo, dada a necessidade da compreensão destas novas visões filosóficas e religiosas que a projectam para novas dimensões. Esta tomada de consciência leva a que os franciscanos e os jesuítas, que marcaram a sua presença em Goa a partir do séc. XVI, cedo aprendessem os dialectos locais, bem como as línguas em que os textos religiosos da Índia estavam escritos, designadamente o Malabar, o Concani e o Sânscrito, este só usado pela casta sacerdotal dos Brâmanes, servindo de base para exprimir o seu pensamento filosófico, literário, e religioso.

Para os Portugueses a descoberta da Índia, constitui, na verdade, um caminho de evolução, o encontro com a origem, diferenciando-se radicalmente do caminho do Ocidente de dimensão marcadamente material de projectar um paraíso na terra. O caminho para o Oriente permitiu, pela descoberta do outro, a compreensão da Totalidade, conferindo um novo paradigma à missão dos Portugueses, que Camões exulta em Os Lusíadas1. Convém sublinhar também a longa distância, com reflexos iniludíveis em outras dimensões espácio-temporais que as muito curtas rotas do Ocidente não alcançavam. Com efeito, a viagem de ida e volta à Índia durava cerca de dezoito meses, facilitava alguma autonomia e implicava a contaminação.

Para os Portugueses a descoberta da Índia, constitui, na verdade, um caminho de evolução, o encontro com a origem, diferenciando-se radicalmente do caminho do Ocidente de dimensão marcadamente material de projectar um paraíso na terra. O caminho para o Oriente permitiu, pela descoberta do outro, a compreensão da Totalidade, conferindo um novo paradigma à missão dos Portugueses, que Camões exulta em Os Lusíadas2.

Uma nova realidade se configura, assim, com a descoberta das rotas do Oriente, o que levou a coroa a criar, logo em 1505, o Estado da Índia, projectado a longa distância com sede em Goa para todo o Oriente, da Ilha de Moçambique a Macau e Nagasáqui, com um vice-rei. O Estado da Índia era um conceito revolucionário de construção política, administrativa e militar. A par disso cria-se o padroado do Oriente, ambos, com uma certa autonomia do poder central, dada a distância e a dificuldade de comunicações.

Ao estabelecer o Estado da Índia, Portugal demonstrou a importância do poder marítimo, que lhe permitiu o controlo do Índico, durante cerca de um século e a passagem para o Pacífico, assegurando o comércio das especiarias depois do controlo de Malaca em 1511 por Afonso de Albuquerque em que participou Fernão de Magalhães e a descoberta das Molucas e Ternate por António de Abreu e Francisco Serrão em 1512.

Importa realçar e justificar que Luís de Camões possuía o conhecimento da filosofia hinduísta, quanto a clássica greco-romana. Por detrás do texto do poema surpreendem-nos princípios e valores fundamentais expressos nos épicos Bhagavad-Gita e no Mahabharata. Não significa isto que Camões fosse um discípulo desta filosofia, mas que recolhia o melhor dos seus ensinamentos isso é um facto.

Fazendo um pouco de luz sobre a presença dos portugueses no Oriente, importa, ainda relevar alguns aspetos do trabalho pioneiro e extraordinário que realizaram em benefício da cultura ocidental. Na verdade só a partir dos meados do século XVIII e todo o século XIX o estudo do encontro com o Oriente apaixonou a Europa culta de então. Descobre-se o parentesco das línguas, depois ditas indo-europeias e nasce uma nova ciência – a filologia comparada.

No âmbito deste magistral trabalho produziram-se tratados, compêndios, sumários e notícias para preparar os estudiosos e os missionários a melhor refutarem os Brâmanes, passando-se à tradução de obras literárias e religiosas, como; Notícia Sumária do Gentilíssimo na Ásia, de autor desconhecido do início do séc. XVII, onde se descrevem as oito reencarnações de Vishnu, seguindo em Língua Portuguesa o clássico hindu Bhagavatam; Tratado sobre o Hinduísmo, 1616, do padre Gonçalo Fernandes Trancoso, tratado notável onde se mencionam as muitas obras consultadas, quase todas escritas em sânscrito; Tradução summa do Livro, que os Gentios da Ásia chamão Bagavata Guita, a primeira tradução realizada em toda a história da literatura ocidental do livro mais famoso da épica hindu.

Sobre este intenso encontro de culturas, que muitas outras revelam, entre traduções dicionários e tratados, lamenta-se o pouco trabalho que se tem feito nos meios académicos portugueses, numa área da cultura e da ciência tão relevante e de que fomos pioneiros, como seja a tradução dos épicos hindus como o Bhagavad-Gita. Ainda nem sequer existe uma bibliografia portuguesa que inclua as traduções directas das línguas vernáculas da Índia, do Tibete e da China.

Sobre este intenso encontro de culturas, que muitas outras revelam, entre traduções dicionários e tratados, lamenta-se o pouco trabalho que se tem feito nos meios académicos portugueses, numa área da cultura e da ciência tão relevante e de que fomos pioneiros, como seja a tradução dos épicos hindus como o Bhagavad-Gita.

Muitos tratados, documentos e acordos foram escritos em Língua Portuguesa, já que os governantes das maiores potências europeias da época perceberam que esta era a língua mais adequada para fazerem negociações, uma vez que a Língua portuguesa incorporava como nenhuma outra, um conhecimento aprofundado dessas culturas e civilizações.

Durante os séculos XVI, XVII e XVIII a Língua Portuguesa foi assim utilizada para fins políticos e comerciais no Índico, no mar da China e do Japão, que a arte namban reflecte, Influenciando ainda várias línguas orientais como os dialetos da Índia, o suaíli, o malaio, o indonésio, o bengali, o japonês, do Ceilão, o tétum de Timor, entre outros.

Depois, veio a hábil construção do Brasil, superdimensionado pelo melhor domínio da cartografia, a acção dos bandeirantes e dos jesuítas que se tornou independente em 1822 e, posteriormente, Angola e Moçambique, Guiné, Cabo Verde e S. Tomé e Príncipe, cuja presença colonial atingiu o seu limite com o 25 de Abril de 1974.

No Brasil, a partir de 1500 a Língua Portuguesa passou a receber diversas influências, nomeadamente dos dialetos indígenas locais, por força do contato, pelo que muitas palavras do léxico indígena foram incorporadas no Português falado na América.

Desta forma, o Português falado no Brasil foi-se diferenciando cada vez mais do Português falado na Europa, dependendo ainda de cada região, a língua sofreu também diferentes influências. Possui, no entanto, uma norma única, muito embora a fala tenha variedades dialetais. Podemos encontrar variações na pronúncia, na entonação da frase, e no léxico, o que é o reflexo das diferenças culturais que se verificam na música, na gastronomia e nos costumes.

A enorme plasticidade da Língua portuguesa permite-lhe hoje construir pontes com novas ideias, sendo um factor imprescindível de afirmação da liberdade e da cidadania nos diversos espaços, países e comunidades onde se fala o português.

Em África, passados quinhentos anos de história, o domínio da Língua Portuguesa é um instrumento fundamental para a unidade e coesão dos Estados, nomeadamente, em Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe, sendo igualmente essencial para a afirmação da cidadania e democratização das sociedades africanas. O domínio da língua facilita a administração e a comunicação entre as populações e o Estado bem como desenvolvimento económico, social e cultural que se exprime a participação política e cívica e nas manifestações artísticas e culturais.

A enorme plasticidade da Língua portuguesa permite-lhe hoje construir pontes com novas ideias, sendo um factor imprescindível de afirmação da liberdade e da cidadania nos diversos espaços, países e comunidades onde se fala o português. Revigora a diversidade cultural, mesmo no contexto da globalização, contrariando o pensamento único e resgatando as humanidades como parte integrante do conhecimento.

Amadeu Bastos Lima

1 Luís de Camões, Os Lusíadas, Canto VII, estrofe (25-8) «Vimos do Indo buscar a grão corrente por onde a lei divina se acrescente»

2 Luís de Camões, Os Lusíadas, Canto VII, estrofe (25-8) «Vimos do Indo buscar a grão corrente por onde a lei divina se acrescente»